A história de dona Anatália

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Nosso plano para aquela terça-feira era visitar alguns irmãos, frutos de um trabalho de evangelização iniciado anos antes em um distrito rural de um município do sertão do Piauí mas, assim como Paulo e Silas em Atos 16, Deus quis nos levar para outro lugar. E, naquele dia, a nossa Macedônia chamava-se Volta do Campo Grande, um aglomerado de povoados ainda não alcançados pelo evangelho que preserva antigas culturas africanas de sua origem quilombola.

Foi lá que conheci dona Anatália, a única irmã em Cristo em toda aquela região. Ela nos recebeu em sua casa com um olhar sofrido, as mãos calejadas e o rosto castigado pela passagem do tempo e pelo calor. Embora houvesse entregue sua vida a Cristo há algum tempo, há anos dona Anatália estava isolada em sua casa, longe de qualquer outro irmão na fé que lhe desse suporte e impossibilitada de viajar até a igreja mais próxima para congregar.

Nossos olhos se encheram de lágrimas ao ouvi-la contar como ela se sentia sozinha e abandonada naquele lugar, como uma ovelha desagarrada e perdida. Apesar de ter uma história muito triste e um passado repleto de decepções causadas por alguns “irmãos”, dona Anatália louvava e agradecia a Deus pela sua salvação e por tantas bênçãos que possuía. Bênçãos que um “piá de prédio” como eu nem se lembra de agradecer.

Naquele momento entendi porque Deus nos trouxe àquele lugar. Tentando segurar as lágrimas, abri a minha Bíblia e disse para aquela senhora que embora eu não a conhecesse, Deus a conhecia e se importava tanto com ela que, mudando o nosso planejamento, nos levou até lá naquele dia para dizer-lhe que:

“Acaso, pode uma mulher esquecer-se do filho que ainda mama, de sorte que não se compadeça do filho do seu ventre? Mas ainda que esta viesse a se esquecer dele, eu, todavia, não me esquecerei de ti.” Isaías 49:15

Quantas “donas Anatálias” passam por nós todos os dias na rua, na igreja, em nossas casas, esperando alguém que lhes dê palavras de esperança e conforto?

Que cada dia nós possamos experimentar o privilégio de ser um instrumento de amor nas mãos deste Grande Deus que se importa com pessoas comuns, como eu e você. Em tempo:

No ano seguinte, voltamos para visitar dona Anatália. Os calos nas mãos continuavam lá, bem como as rugas no rosto e os cabelos brancos pareciam ter se intensificado. Mas havia algo de muito diferente no olhar e no sorriso de dona Anatália.

Durante aquele ano, o grupo de jovens da igreja local que nos dava suporte na viagem missionária dedicou-se a evangelizar a região da Volta do Campo Grande regularmente. E nessas oportunidades, a casa de dona Anatália serviu de base de apoio para as operações missionárias do grupo. Por causa das visitas mensais que recebeu desses jovens, a fé de dona Anatália foi revigorada e pude ouvir sua família reconhecer o amor e o cuidado que a família da fé estava demonstrando por aquela senhora, antes esquecida e sozinha. Que nesse exemplo, possamos ter uma motivação para nos incentivar a animar e encorajar irmãos e irmãs que têm se sentido sozinhos e cansados.

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Escondido no sertão

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É uma brincadeira clássica: Um amigo seu está na beira da piscina e você tenta pegá-lo desprevenido para jogá-lo dentro d’água. Acontece que, as vezes, o amigo surpreende e é você quem é pego desprevenido e acaba se molhando contra a vontade.

Eu estava realizando um sonho. Éramos a primeira equipe cristã a percorrer aquele isolado rincão do interior do Piauí. Nosso objetivo era fazer um reconhecimento dos povoados da região para traçarmos futuras estratégias missionárias. Eu me sentia o William Carey do século XXI, Hudson Taylor em Missão para o Interior do Nordeste.

Em determinado momento da viagem por aquela terra inóspita e isolada, meu amigo que liderava a equipe resolveu parar o carro. Batemos na porta de uma casa de barro e paredes caiadas que pareciam ter resistido com dificuldade a muitos verões causticantes. Em pouco tempo, fomos recebidos por uma senhora de meia idade e lhe pedimos um pouco de água.

Entramos em sua casa, nos apresentamos como curitibanos que estavam conhecendo a região e fizemos algumas perguntas para conhecer sua história e a região. Foi então que decidimos contar-lhe o principal objetivo de nossa visita, que era o de apresentar o evangelho de Jesus Cristo.

Este foi o momento em que nos surpreendemos e fomos para dentro da piscina. Apontando para uma pequena TV no canto da sala, aquela senhora nos contou que, embora nenhum missionário houvesse chego àquele fim de mundo, Jesus já havia entrado dentro daquela casa e de sua vida. Mesmo dispondo de energia elétrica há muito pouco tempo, aquela senhora aprendeu, por meio daquela televisãozinha, que era pecadora e precisava da graça salvadora de Cristo, oferecida através de seu sacrifício na cruz.

Houveram muitas outras incríveis experiências nas semanas em que estive no sertão, mas naquele dia, naquele lugar tão distante e isolado, com aquela senhora semi-analfabeta que milagrosamente conseguia ler a bíblia, eu aprendi algo que William Carey e Hudson Taylor já haviam aprendido centenas de anos antes, e que o salmista já havia expresso de forma poética há milhares de anos:

“Para onde poderia eu escapar do teu Espírito? Para onde poderia fugir da tua presença?” Salmo 139:7

Não há lugar para onde eu vá, em que Deus já não esteja. E não há ninguém que esteja tão longe, que Deus não possa alcançá-lo. Porém em sua onipresença, Ele nos convida a sermos aqueles que, imbuídos da Sua graça, iremos até essas pessoas para contar-lhes e relembrar-lhes desse Deus que nunca as abandonou. E embora nenhum missionário houvesse pregado o evangelho lá, embora não houvesse nenhum outro cristão em toda aquela região para dar seu testemunho, Deus já estava operando e expandindo seu Reino entre aquele povo. Nós saímos de lá boquiabertos, mas Ele nunca é pego de surpresa na beira na piscina.

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O sorriso do palhaço

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Eu já havia estado no sertão nordestino algumas vezes e sobrevivido a alguns dias bem quentes, então não estava surpreso com o sol que me queimava a nuca. Porém, embora não estivesse surpreso, também não estava nem um pouco acostumado com o habitual calor do interior do Ceará. Mas aquele dia não teria nada de habitual.

Era dia de feira em Pires Ferreira, e em cidades assim, o dia de feira é aquele em que todos  se agitam e se arrumam para ir às compras ou simplesmente para ver e ser visto. Pensando nisso, a programação de nossa viagem missionária previa impactar as pessoas naquela feira com a distribuição de folhetos e porções da bíblia, bem como conversar e apresentar o evangelho. E eu… Bem, o plano era que eu me vestisse de palhaço e ajudasse a chamar a atenção das pessoas e divulgar o trabalho que estava sendo desenvolvido.

O problema é que eu sou um péssimo palhaço.Não sei fazer malabarismos ou truques de mágica. E quando as crianças me pediam para contar piadas… Eu rapidamente percebi que precisava de uma estratégia melhor!

Se eu não sabia o que falar, viraria um mímico mudo. Caminhava atrás das pessoas imitando seus passos e gestos. Crianças, adultos e idosos. Rapidinho, consegui conquistar a feira toda. Sertanejos calejados e senhoras do rosto sofrido sorriam com minhas caretas e estripulias entre as barraquinhas.

As horas foram passando e as pessoas que andavam pela feira mudavam. Quem terminava as compras era substituído por novos moradores do município. Só os vendedores permaneciam. Conforme o sol subia e o calor aumentava, minha determinação nas palhaçadas começou a me parecer uma bobeira desnecessária. O cansaço estava prestes a me dominar quando um senhor sorridente que vendia grãos elogiou meu esforço para fazer os outros rirem em meio à realidade tão difícil daquele lugar.

Entendi que era uma oportunidade de lhe apresentar o verdadeiro motivo pelo qual eu estava ali. Contei-lhe sobre Jesus, o Deus que tomou sobre si todas as minhas dores e tristezas e me deu o verdadeiro motivo do meu sorriso. Mostrei que por trás do personagem, da maquiagem e do nariz de borracha havia um jovem que não sabia fazer palhaço, mas que conheceu Aquele que é a fonte de toda a alegria. E foi então que percebi as lágrimas que escorriam do rosto enrugado e queimado de sol daquele homem forte, mas que não tinha mais forças para caminhar sozinho.

Na minha incredulidade, Deus me ensinou que Ele pode e quer usar minhas medíocres habilidades para mostrar àqueles que estão cansados e sobrecarregados que Ele, e só Ele, pode aliviá-los. Oro para que você sinta-se desafiado a desfrutar do do privilégio de deixar Deus usar a sua vida como um instrumento para impactar a vida das pessoas.

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UTI

UTI

Após alguns dias internado, consegui entrar na UTI para visitar meu avô junto com minha vó. Caminhamos até o leito onde vovô estava deitado, cheio de tubos e fios e já bastante magro e fraquinho.

Quando chegamos meu avô ainda estava acordado porém conforme minha avó conversava com ele e contava sobre todas as pessoas que haviam telefonado e desejado melhoras, meu avô adormeceu. Mas a vovó não percebeu e continuou falando até que eu lhe mostrei que, por estar muito fraco, o vô havia dormido. Vovó simplesmente ficou quieta e baixou a cabeça, continuando a acariciar a mão direita do marido.

Era nítida a tristeza que minha vó sentiu quando percebeu o quão fraco meu avô estava e, para tentar animá-la, perguntei se hoje o vô já havia dito que a amava, ao que ela respondeu com um simples “Não querido, mas deixa pra lá. Ele está cansado hoje.”

Agora talvez você me critique pela atitude que eu tomei, mas embora na hora parecesse insanidade, nunca me arrependi do que fiz naquele momento.

Lá estava meu avô deitado na maca da UTI, muito magro, fraco e cheio de fios pelo corpo. E lá estava o neto que sem pensar duas vezes cutucava o avô no ombro tentando acordá-lo.

- Vô, vô! Acorda, vô!

Após uma certa insistência, meu avô abriu os olhos lentamente e eu lhe falei:

- Vô, a vó quer ouvir o senhor dizer que a ama!

Desculpem-me, mas não consigo segurar o choro nesta parte da história. Espero com todo o meu coração que a memória desta cena nunca saia da minha cabeça. Meu avô juntou todas as forças que tinha, olhou para minha vó, olhos nos olhos dela, e disse… bem, na verdade ele não disse porque não tinha nem mais forças para falar, ele apenas gesticulou aquilo que seus olhos diziam claramente:

- Eu te amo.

Imediatamente depois disso meu avô adormeceu novamente. Após alguns minutos acabou o tempo de visita na UTI e nós tivemos que ir embora. Dois dias depois meu avô faleceu. Esta foi a última vez que eu o vi, mas tenho muito orgulho por lembrar que as suas últimas palavras foram a mais sincera declaração de amor que eu já vi, justamente para a mulher com quem esteve casado por 55 anos.

E viveram felizes para sempre.

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O irmão mais velho

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Ele tem um emprego muito bom. Parece um cargo interessante e certamente bem remunerado. Independente, alguns anos mais velho, responsável e gente boa. E o melhor de tudo: é meu amigo! Em pouco tempo se tornou uma referência pra mim. Olho para ele, para o que ele conquistou e até onde chegou e sonho em chegar lá, ser como ele.
Por causa disso fiquei muito surpreso quando ouvi-o dizer que me admirava. “Como assim?” pensei, “sou eu quem te admiro!”. Na hora é claro que não disse isso. Apenas sorri um pouco encabulado e retribuí com aquele agradecimento padrão n.º 7 que uso após elogios inesperados.

De qualquer forma, essa dúvida ficou ecoando dentro da minha cabeça durante um bom tempo, afinal, o que eu tenho para se admirar? Comparando com ele, sou apenas um piá que só estuda e ainda mora com os pais.
Eu passei minha vida inteira dentro da igreja. Não me desviei pro mundo das drogas ou do alcoolismo. Pode-se dizer que minha vida é até bem certinha. Meu amigo não. Conheceu a Cristo muito depois. Experimentou tudo que a vida tinha para oferecer e mais um pouco. Eu frequentei todas as classes de escola dominical, aprendi versículos de cor desde criança enquanto ele enchia a cara e pegava o maior número possível de mulheres.

De repente me senti como o irmão mais velho do filho pródigo. O caçulinha saiu de casa e quebrou a cara. Aprendeu a duras penas que não existe lugar melhor para se estar do que junto ao Pai, mas o irmão mais velho nunca saiu de casa. Esteve sempre alí, desfrutando de tudo que o Pai tinha a lhe oferecer e, embora tenha visto o estado em que seu irmão retornou (imundo, faminto e fedido), não conseguiu entender o privilégio que teve em permanecer na casa do Pai.

E lá estava eu, reclamando com o Pai que nunca tive “um bezerro cevado”, ou seja, nunca pude aproveitar de verdade a vida. O irmão caçula tinha acabado de voltar, arrependido pelo que passou, convicto de que o melhor jeito de aproveitar a vida é na casa do pai, admirado pelo privilégio que eu tive de permanecer lá enquanto ele quebrava a cara no mundo… e eu invejando a vida que ele tinha levado lá fora.

Acredito que existem muitos “irmãos mais velhos” por aí. Crescemos dentro da igreja mas sempre invejando o que acontecia lá fora. Até conhecemos muito da Bíblia, mas desejamos viver do outro lado, só por um pouquinho, só pra saber como é. A vida do meu amigo me ensinou que não importa onde estejamos, não existe lugar melhor para se estar do que na casa do Pai. Mas isso é algo que cada um de nós tem que aprender.
A pergunta é: por quanto tempo você vai querer quebrar a cabeça até voltar pra casa?

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